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Categoria: Conto 11/03/08 - Terça-feira postado na categoria Conto Entrei em minha sala de estudo ao meio-dia de uma quarta-feira, quatro de novembro de 1989, pronto para escrever mais uma dessas narrativas do interessante. Fabulosamente. Estava tudo pronto na minha cabeça. Era a história de Débora que, um dia, em 1991, saía de casa para morrer como vi, espetacularmente, alguns minutos depois de mim, como eu previa. Débora tivera um dia triste. Em pé, no quarto, olhando o espelho da parede; deitada, nua, olhando o espelho do teto. Lia a história de alguém sem sombra, e, por isso, uma hora e outra procurava pela sua. Tinha os cabelos despenteados, a pele sem maquiagem, o nariz claro, as orelhas pequenas. Abrir e fechar os olhos eram ações que, às vezes, se confundiam. Deitar de bruços era como deitar de costas, nada mais. E se alguém, como eu, ficasse muito tempo admirando-a, tentando descobrir todos os matizes da tristeza em tão singela feiúra, acabaria certamente por dizer tolices como deitar de bruços era como deitar de costas. Nada mais. Foi então que, inesperadamente, como se espiritada por uma boa ou por uma má idéia, se levantou da cama, quebrou todos os móveis do quarto e gritou que, se a única maneira de ser espetacular, original, lembrada, ficara no passado, perdia tempo, não seria nunca encontrada ali. E gritou mais alto que o rádio, espatifou o telhado, saltou pela janela e foi morrer na calçada vazia e suja de passos sem demora. "Não dá pra viver sem voltar!", disse. Vinte e quatro horas antes, em 1987, nascia F. Fernandes de um parto complicado, cheio de erros humano s e incidentes inexplicáveis. Chorou custosamente, feriu-se no umbigo do mundo e foi direto para a incubadora do hospital. No outro dia os jornais deram a notícia enfeitada do nascimento da filha do Dr. Fernandes, empresário de refinado gosto, intelectual com pose de literato. Porém no outro dia, em 1989 ou 90, o mesmo jornal, juntamente com a notícia da morte espetacular de Débora, desmentiu a notinha social, explicando que a criança mal teve 24 minutos de vida, vindo a falecer logo, para desconsolo dos desafortunados pais. Fim da história, que, já deve ter percebido, envolve você. Sim, você, que vai até o fim e depois. De minha parte digo que amei Débora e F. Fernandes desde a primeira vez em que as vi. Penso nelas todos os dias, precisava contar a alguém. Embora tenham vivido apenas por instantes, estiveram comigo o tempo todo, desde quando as imaginei. E não vão mais embora, agora que foram lidas.
Publicado na Tribuna do Planalto em 9.03.2008. Para ler no jornal, clique AQUI.)
25/02/08 - Segunda-feira postado na categoria Conto Ela chegou sorrateiramente, sentou-se ao meu lado e me saudou com um grande abraço nos olhos. Não disse nada. Puxou-me pelo colarinho - apenas com o forte olhar - e me deu o beijo gostoso de adeus que agora existe. Estava nua, bela, exuberante. Enquanto me beijava, ia comendo minha língua com a mesma volúpia da pedra atirada no leito de um lago, logo e ansiosamente, uma paisagem a mais. Anjo pleno de imaginação. O beijo durou até que a pouca luz da noite apareceu abruptamente. Caí na outra ponta do meu corpo, com todo o barulho do mundo e tive vontade de morrer. Eu estava só. Recomeço a andar. A noite esconde a minha sombra e não cala nunca a sua inquietude. Meus passos são anotados no chão, porém ficam para trás. Amarram as ruas desarrumadas para não perdê-los - elas, que nunca obedecem a ordem alguma. Os olhos perdidos procuram nas esquinas, e sob poucas luzes acesas dos postes, uma gente vive, enfim, para, ao menos, que se informem da minha existência. Ora, ora, cadê o beijo de agora há pouco? Que foi feito de mim naquele banco daquele jeito naquela hora? Saio da calçada com raiva, acelero os passos, incentivo a respiração.
(Publicado na Tribuna do Planalto em 24.02.08)
20/02/08 - Quarta-feira postado na categoria Conto Quem não tem o que inventar, inventa uma grande fogueira que nunca se apaga para a praça daquela cidade tão sem tamanho. Também inventa que a fumaça, sumindo no céu, é gente quando estou por perto. Nascido de todos, rosto fino, de mulher espantosa embora homem inenarrável, braços longos, pés que se plantam ao chão que pisam, nariz estreito e boquiaberto sempre; ou mudando a cor dos cabelos, alongando o nariz, estreitando a boca e sorrindo depois de ter chorado. Eis que Indelével é cada morador da cidade, que gosta de ver o que não reconhece, e de ser o que nem se percebe. Conto uma história. Ele está na esquina do açougue tentando escutar o que falamos num fininho. Hora morna, tarde quieta. Conversamos tão baixo, e só para nós quatro, que ele ouve apenas o dia. Está confuso por não nos entender. Espera que falemos mais alto. De repente fugimos cada um para o seu lado, na hora. Ele se assusta, sem saber o que fazer - e não faz nada. Rimos. Começa a brincadeira. Desaparecemos de vez no ar. Enganamos as ruas e os inimigos; os amigos e as pedras; os vivos e enganamos Indelével. Feitos de dissimulação, dissimulamos até mesmo nossa ausência, nesta cidade. Ele vai para a praça nos esperar. Faz desenhos com os olhos, enquanto iniciamos nossa sutil caminhada até ele. Nós, escusos. De árvore em árvore, em todas as ruas. Atrás dos postes de luz. Pelo não ver dos passantes. Precisos. Por que não ser perfeitos? Cada um sentindo a aproximação dos outros três. Indelével não percebe a nossa chegada, e a cada segundo se distrai mais. Por querer? Perfeitos. Agarrados aos meio-fios, às sombras dos ramos, vamos escorregando. Já é noite forte. Um esconde-se atrás do espinho caído próximo a Indelével. Dois mete-se entre as gretas de cimento das calçadas. A praça repleta de praça. Três mistura-se aos muitos raios da lua. Quatro vira-se do avesso para parecer ninguém nem algo, enquanto o vento absorve o nosso cheiro e nos acalma com o seu frescor. Ainda mais próximos. Por um hálito. A máxima perfeição. Que Indelével seja apenas alguém numa praça, desprevenido do mundo. Então partimos ao seu encontro. Diretos sobre ele, que nem pode se assustar, recebe o impacto das quatro cabeças em seu corpo, sobe, estoura no céu e na terra, despedaçado, sem tempo de ter um segundo com a memória de uma vida. Rimos e é fervoroso, tanto prazer. Um por um os habitantes da cidade vão surgindo para a tudo ver de perto. Quando partimos para a Grande Fogueira. Aos poucos o fogo chega aos quatro, alcançando-nos na brisa, fumaça viva solta vida. Espalhados, confundidos com o ar puríssimo da cidade. E num fundo aspirar das pessoas, somos sugados por pulmões misturados aos olhos, às rugas e ao gosto absurdo pela paciência, dos amigos da nossa morte e dos amigos da nossa vida. Mas chega. É hora de interpretar.
(Publicado na Tribuna do Planalto em 17.02.2008)
26/01/08 - Sábado postado na categoria Conto Não estava fugindo. Ia apenas até a cidade vizinha comprar cigarro. Sentou-se numa poltrona da janela, escorou o pé direito no esquerdo e apoiou o cotovelo no encosto. A caminho, ouviu o início de uma conversa, logo à sua frente. Ficou atento ao que diziam. Eram dois homens. Falavam da colheita daquele ano, muito boa. Em menos de cinco minutos deu-se conta de que um dos homens que conversavam tinha as mesmíssimas idéias suas, nem um pingo a mais ou a menos. Ficou mais atento. Na primeira oportunidade, seguiu escondido e o matou. Correu para a estrada, pegou outro ônibus em sentido contrário, sentou-se caladinho e respirou aliviado. Era só ele agora. Resolveu parar uma esquina antes de seu ponto. Desceu alegre. Foi seguido. E morto imediatamente. Nem pensou. Nem viu. Por enquanto, estou vivo.
Publicado na Tribuna do Planalto de 27.01.2008 (para ler na Tribuna, AQUI).
26/01/08 - Sábado postado na categoria Conto O espírito avançado de Joel desceu sobre a Terra, vindo de longe, tão longe, e caminhou em direção ao Bar Brás. João entrou no bar. Joaquim dirigiu-se ao balcão e pediu pinga ao homem de bigode que servia a todos. Joana tomou um gole, outro, virou o resto. Carlos cuspiu. Manoel olhou em volta e viu o que viu. Macário preferiu não acreditar. Tonico pediu outra pinga. Ziquinho falou para algum ouvido atento, que vira de longe, e para mais longe ia ainda. "Ando atrás de alguém", disse Zorba. "Mas se procuras alguém que não sabes onde está, como podes saber então que este alguém está longe?", quiseram saber de Borges muitos copos vazios e bocas. Bastos respondeu: "Sei que está longe porque sou eu quem o procura, e é como se o visse bem à minha frente a cada distância vencida." Mesas queriam saber quem era o homem tão distante. Barriga disse: "Nem homem eu sei se é. É como Deus". Augusto tomou outro gole. Átila estranhou o mundo. Percebeu Agildo que deveria andar mais, já que as lâmpadas ameaçavam apagar-se. Um átimo na longa vida de Abreu. Gole a mais de Bento, que saía do bar. Saía Jonas quando alguém, um entre tantos, esfregou a barba e disparou tiro certeiro em sua nuca. O corpo de Jales caiu na calçada, morto. A calçada não o deteve. Por que morrer? Por que matar? Jamil levantou-se, limpou o pó fúnebre e partiu. Adão era assim.
Publicado na Tribuna do Planalto de 27.01.2008 (para ler na Tribuna, AQUI).
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25/02/10
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